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Fev
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Helvetica, alta costura ou uniforme?

POR: Filipa Pias

Imagem da entrada: Helvetica, alta costura ou uniforme?

Caminhamos na rua em direcção à paragem de autocarro, lemos o percurso do autocarro e o número que o identifica, entramos, sentamo-​​nos e vimos impresso no vidro “Partir em caso de acidente”, passamos pelos “Táxi”, pelos carros que estacionam no “P” de parque, pousamos os olhos nos avisos do autocarro, “Cuidado com os carteiristas”, nos outdoors que promovem vários serviços, nos painéis luminosos de informação.

Entramos no café e olhamos para o aviso “Não fumadores” para o pacote de açúcar que agora tem um pequeno texto, para os jornais gratuitos, para a ementa do dia. “Empurre”, empurramos a porta do local de emprego, entramos no elevador, carregamos no botão do piso “7” que está no painel luminoso, a porta abre-​​se, no topo da parede está um senhor verde a correr, uma seta e a palavra “Exit” e na porta de acesso ao gabinete, “Puxe”, puxamos, sentamo-​​nos e preparamo-​​nos para mais um dia de trabalho, sem contudo nos apercebemos da quantidade de informação que já consumimos e com que interagimos.

O elemento comum para o entendimento da informação que consumimos é a tipografia. A tipografia está em todo o lado, atravessa a sociedade, une culturas, mobiliza-​​nos de forma discreta mas directa, é global muito antes de nos considerarmos uma aldeia global.

A tipografia é a ponte entre o alfabeto e a escrita. A tipografia cria; o desenho das letras utilizadas para reprodução, a composição das linhas de texto, o espacejamento entre as letras e palavras, a definição do entrelinhamento, do alinhamento e do tipo de linhas e colunas que devem compor um texto. A tipografia também preenche os espaços vazios do alfabeto, criando ruído ou depurando a sua composição, enfatizando ou não o sentido do texto.

Para quem diariamente absorve e é absorvido pela panóplia de informação existente no espaço urbano a distinção de um tipo de letra é irrelevante, mas é o elemento silencioso que torna a informação possível e dá significado à mensagem.

A informação que encontramos no espaço urbano utiliza com frequência um tipo de letra, a Helvetica, uma espécie de uniforme, um fenómeno de popularidade e de longevidade, nem sempre consensual no meio do design.

Helvetica foi desenhada em 1957 por Max Miedenger, designer suíço que, a convite de Eduard Hoffmann, aceitou o desafio de criar um tipo de letra imparcial. Consegui-​​o através da simplicidade do desenho, das formas limpas e muito bem definidas, do balanço entre os traços finos e grossos, da boa legibilidade que tem e consequente flexibilidade de adaptação aos diferentes suportes. Em 1960 alterou o nome inicial, Neue Haas Grostesk para Helvetica, cuja origem é a designação em latim de Suíça, Helvetia.

A Helvetica foi de imediato absorvida pela comunidade de designers suíços que começou a aplicá-​​la na identidade corporativa das empresas, em publicidade, na informação e no design editorial e de exposições, tendo-​​se tornado rapidamente num dos tipos de letra mais usados.

Helvetica materializava o espírito do pós-​​guerra, livre e jovem, empreendedor e transparente, inovador e conciliador, liberto de preconceitos.

Em 1984 passou a fazer parte do conjunto de tipos de letra do computador Macintosh, o que lhe proporcionou uma enorme divulgação, onde existia um Macintosh, existia a Helvetica. Acessível e sem custo para o utilizador, a Helvetica ganha um novo fôlego e o respeito das novas gerações de designers que a consideram a cara das novas tecnologias, de modernidade.

A Helvetica, à semelhança da tipografia, está em todo o lado; passados 50 anos e com tantos novos tipos de letra, mantém-​​se actual, imparcial e intemporal, continua a suscitar amores/​ódios; amada por muitos e odiada por tantos outros.

No entanto, foi a sua depuração e neutralidade visual que fez com que sobrevivesse até aos dias de hoje numa sociedade alicerçada em signos e na afirmação individual. Ao não definir um estilo, não invocando nenhum traço particular, sendo acessível nos computadores, sem rosto mas eficaz, a Helvetica tornou-​​se um pouco de todos nós, anónima e ao mesmo tempo tão presente.

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Filipa Pias

Filipa Pias

Sócia da Associação Portuguesa de Designers e designer da AICEP, Pós Graduação em Artes Gráficas, é mestranda no ISEC Universitas, onde investiga a viabilidade económica da gráfica AICEP, os prós e contras do outsourcing vs insourcing. Elaborou o sistema de sinalética da AICEP, a revista “Memória” do Centro Português de Fundações e o manual didáctico Logótipo – O que é? Para que serve? Como se constrói?

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